segunda-feira, 2 de setembro de 2013

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,...
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
(Carlos Drummond de Andrade)
 
Esse poema me leva à reflexão...
 
Descobri que foi escrito durante a Segunda Guerra e a Ditadura Militar . Esse poema retrata a solidão  do homem e sua profunda  angústia perante à vida. Retrata uma época de repressão e não de "sujeitos". O homem se sente frustrado e impossibilitado de agir. Ele é passivo perante à vida.
 
Neste momento atual de grandes manifestações em nossa cidade ,dedico esse poema aos "Josés", aqueles que transitam pelas ruas sem serem notados , ouvidos ou vistos. Aos "Josés" condenados pelos seus governantes ao autoritarismo , que não tiveram nenhuma oportunidade de realizarem seus sonhos como homem . Que  protestam, gritam, amam, mas têm seu protesto e grito sufocados pela indiferença . Aos "Josés" que continuam se arrastando pela vida sem saber onde vão chegar.
Acho que podemos mudar tudo isso .
Precisamos principalmente de  UNIÃO e AÇÂO ! 
 
                                                                                                                              (Rio,02/09/2013)

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